26/09/2026
A perseguição religiosa na China voltou ao centro do debate internacional. Um grupo bipartidário de dez senadores dos Estados Unidos pediu ao presidente Donald Trump que cobrasse diretamente do presidente chinês, Xi Jinping, a libertação de pastores, líderes cristãos e outros prisioneiros detidos por exercerem sua fé.
A iniciativa acontece em meio às denúncias de repressão contra igrejas não submetidas ao controle estatal chinês. O assunto ultrapassa as fronteiras da China e merece atenção também no Brasil, especialmente diante do crescimento expressivo dos investimentos e da influência econômica chinesa em território brasileiro.
A carta enviada a Trump foi liderada pelos senadores Ted Budd, republicano, e Tim Kaine, democrata, e recebeu a assinatura de outros oito senadores dos dois partidos.
Os parlamentares pediram que o governo americano continue pressionando Pequim para acabar com a perseguição contra organizações religiosas e libertar pessoas que, segundo eles, permanecem injustamente detidas por exercer sua liberdade de crença.
Entre os casos citados estão o pastor Gao Quanfu, sua esposa Pang Yu, o pastor Tang Bingyi, da Light of Zion Church, e oito integrantes da Zion Church que continuam detidos.
A mobilização ganhou força após a libertação do pastor Ezra Jin, fundador da Zion Church. Trump havia levantado seu caso diretamente com Xi Jinping, e Jin acabou sendo libertado em julho de 2026, depois de mais de 260 dias de detenção.
O caso tornou-se uma demonstração concreta de que pressão diplomática internacional pode produzir resultados.
Mas outros cristãos continuam aguardando liberdade.
É importante destacar que as preocupações com a liberdade religiosa na China não partem somente de igrejas ou organizações missionárias.
A Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional, a USCIRF, documentou em seu relatório de 2026 graves violações ocorridas durante 2025.
Segundo a comissão, o governo chinês mantém uma ampla estrutura de leis e políticas destinadas a controlar a atividade religiosa. O relatório também aponta a continuidade da chamada política de “sinicização da religião”, por meio da qual o Partido Comunista Chinês procura submeter a expressão religiosa às diretrizes políticas e culturais estabelecidas pelo Estado.
Igrejas protestantes independentes estão entre os grupos afetados.
Em outubro de 2025, mais de vinte integrantes da Zion Church foram detidos. Outros líderes de igrejas também receberam longas penas de prisão, enquanto atividades religiosas realizadas fora das estruturas reconhecidas pelo governo continuam enfrentando severas restrições.
Essa realidade deveria despertar a atenção da Igreja brasileira.
Enquanto podemos abrir nossas Bíblias, reunir nossas famílias nos templos, transmitir cultos pela internet e anunciar publicamente nossa fé, existem irmãos em Cristo para os quais essas mesmas atitudes podem representar perseguição, interrogatório ou prisão.
A Palavra de Deus nos ordena:
“Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como sendo-o vós mesmos também no corpo.” — Hebreus 13:3
A Igreja perseguida não pode ser esquecida pela Igreja livre.
Existe uma questão profunda por trás desse conflito.
O cristianismo afirma que existe uma autoridade acima do Estado.
Para o cristão, nenhum governo possui autoridade sobre sua consciência maior do que Deus.
Foi exatamente esse princípio que apareceu quando os apóstolos receberam ordem para deixar de anunciar Jesus.
Pedro respondeu:
“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.” — Atos 5:29
Essa frase explica por que regimes autoritários frequentemente entram em conflito com uma fé verdadeiramente independente.
O cristão pode respeitar autoridades.
Pode obedecer às leis.
Pode orar pelos governantes.
Mas existe uma fronteira que o Estado não pode ultrapassar: o senhorio da consciência diante de Deus.
Quando um governo pretende determinar não apenas aquilo que o cidadão pode fazer, mas também aquilo que pode crer, ensinar e proclamar, surge um conflito inevitável.
A Bíblia já advertia:
“E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições.” — 2 Timóteo 3:12
A perseguição nunca conseguiu destruir a Igreja.
Ao contrário, a história demonstra repetidamente que, quando tentam silenciar o Evangelho pela força, a fé encontra novos caminhos para continuar avançando.
Aqui está um aspecto que, como pastor e cidadão brasileiro, considero necessário levantar.
A presença econômica da China no Brasil está crescendo rapidamente.
Isso não é especulação.
Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China, o Brasil foi o maior destino mundial dos investimentos chineses em 2025. Os investimentos chegaram a aproximadamente US$ 6,1 bilhões, crescimento de 45% em relação ao ano anterior, com participação importante em eletricidade, mineração e indústria automobilística.
Ter relações comerciais com a China não significa automaticamente importar seu modelo político.
Também seria irresponsável afirmar, sem provas, que investimentos chineses constituem por si mesmos um plano secreto de dominação do Brasil.
Mas seria igualmente ingênuo acreditar que grandes relações econômicas não possuem dimensão geopolítica.
Dinheiro também produz influência.
Quando uma potência estrangeira amplia sua participação em setores estratégicos de outro país, governos, parlamentos e sociedade precisam acompanhar esse movimento com atenção.
E aqui está minha preocupação pastoral:
O Brasil pode fazer negócios com a China sem silenciar diante da perseguição religiosa existente naquele país.
Não podemos permitir que interesses econômicos façam nossa sociedade fechar os olhos para aquilo que acontece com cristãos chineses.
A China pode ser uma importante parceira comercial do Brasil.
Mas parceria econômica não significa concordância moral.
Precisamos defender nossa soberania, nossas instituições democráticas, nossa liberdade de expressão e, especialmente, nossa liberdade religiosa.
O Brasil não pode importar modelos de controle da consciência.
Não podemos aceitar qualquer tentativa, venha de onde vier, de reduzir o espaço da Igreja, controlar a pregação, vigiar a manifestação da fé ou transformar convicções religiosas em concessões do Estado.
Liberdade religiosa não é favor concedido por governos.
É um direito fundamental da pessoa humana.
A notícia dos cristãos presos na China não deveria produzir apenas indignação.
Deveria produzir oração.
Enquanto discutimos política dentro de nossas igrejas, irmãos nossos enfrentam consequências reais simplesmente por permanecerem firmes na fé.
Jesus declarou:
“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.” — Mateus 5:10
Precisamos orar pelos pastores presos.
Orar por suas famílias.
Orar pelas igrejas subterrâneas.
Orar para que governantes sejam confrontados pela verdade.
E também precisamos cobrar de nossas autoridades brasileiras coerência nas relações internacionais.
Comércio é importante.
Diplomacia é necessária.
Investimentos podem gerar empregos e desenvolvimento.
Mas direitos humanos e liberdade religiosa não podem desaparecer da mesa de negociações simplesmente porque existe dinheiro envolvido.
A iniciativa dos senadores americanos demonstra que diferenças partidárias podem ser deixadas de lado quando está em jogo uma liberdade fundamental. Republicanos e democratas assinaram conjuntamente o pedido dirigido a Trump.
A Igreja brasileira também precisa compreender isso.
Quando um cristão é perseguido por causa de Cristo do outro lado do mundo, ele não é um estranho.
É nosso irmão.
Paulo ensinou:
“De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele.” — 1 Coríntios 12:26
Hoje são pastores chineses.
Amanhã poderão ser cristãos de outra nação.
Por isso, liberdade religiosa precisa ser defendida enquanto ainda temos liberdade para defendê-la.
Que Deus fortaleça nossos irmãos perseguidos na China.
Que as portas das prisões sejam abertas.
Que pastores possam voltar para suas famílias.
Que igrejas possam adorar sem medo.
E que o Brasil tenha sabedoria para relacionar-se economicamente com todas as nações sem negociar aquilo que não tem preço:
nossa soberania, nossa liberdade e o direito de professar publicamente nossa fé.
“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.” — Atos 5:29
Pr. Wilde Ramalho Ferreira
Pastor | Comunicador | Articulista Cristão